terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Projetos mostram superação no palco


Portadores de deficiência encontram na arte uma ferramenta para a inclusão social

“Só uma mão jamais fará aplauso, só uma boca jamais fará o beijo. Tudo junto, sim, formarão uma imensa risada que quando Deus ouvir, nunca mais vai se sentir sozinho.” (Oswaldo Montenegro)

O tradicional espetáculo natalino “O Quebra-Nozes” será encenado por bailarinos deficientes visuais, no próximo dia 17 de dezembro, no Teatro Vivo, em São Paulo. 




O grupo de bailarinos faz parte da Associação de Ballet e Artes para Cegos Fernanda Bianchini. O ballet clássico para deficientes visuais surgiu no Instituto de Cegos, em São Paulo, há 15 anos. O método é pioneiro no mundo e foi desenvolvido voluntariamente pela bailarina e fisioterapeuta Fernanda Bianchini.
“Eu não sabia ao certo como ensinar ballet para deficientes visuais”, admite, lembrando que suas professoras sempre diziam que seria impossível ensinar sem recorrer à imitação visual. “Mas criei, juntamente com minhas alunas, um método de aprendizado através do toque. Eu nunca tive que ensinar duas vezes o mesmo passo, pois as alunas jamais o esqueciam,” afirma a fisioterapeuta.
O segredo é lançar mão dos outros sentidos, já que os alunos são privados da visão. “Em primeiro lugar, usa-se muito a audição, pois  eu descrevo oralmente a ação corporal. Em seguida, o aluno passa a utilizar o tato para sentir que tipo de movimento está sendo realizado e reproduzi-lo”, diz Fernanda.

A inclusão no teatro



Um exemplo de inclusão no teatro é o musical A Mansão de Miss Jane Mix, que conta com a participação de cadeirantes e deficientes visuais no elenco.
O grupo faz parte do Projeto Mix Menestréis, criado pelo diretor Deto Montenegro em 2003, que posteriormente resultou na criação da Cia Mix Menestréis.
O roteiro da peça original foi adaptado para os portadores de deficiência, principalmente a parte coreográfica. “Não se pode mudar muito, porque senão você foge da linha original do musical. É importante que o público se identifique com o original. Por outro lado, é inevitável mudar, porque a cadeira de rodas muda toda a relação de tempo e espaço no palco”, explica Deto.
O diretor criou um método para que os deficientes visuais pudessem se locomover no palco. A partir do poema escrito pelo irmão (ver epígrafe), Deto observou que, no momento em que o deficiente visual achasse o cadeirante, ele não só o conduziria, mas o contrário também aconteceria.


Muitas coisas mudaram na vida dessas pessoas envolvidas, como percepção, intuição, reflexo, capacidade de improvisação, capacidade de lidar com as dificuldades, com os erros e principalmente, com a auto-estima.
Segundo Rodolfo Ferran, ator cadeirante da Cia Mix Menestréis, as mudanças foram significativas, “Conheci muitas pessoas com deficiências, pessoas com mais limitações do que eu. Mudei até o fato de não reclamar mais da vida e passei a ver com outros olhos a capacidade do ser humano”.
Outro exemplo de auto-estima é o de Roseli, atriz deficiente visual, que também faz parte do grupo formado pela Cia Mix. “Na minha vida mudou muita coisa, o teatro faz com que a gente fique mais feliz, mais alegre, mais convicta. Você aceita melhor as pessoas ao seu redor e aprende a trabalhar em grupo”, afirma.
O musical entrará novamente em cartaz em fevereiro 2010, no teatro Dias Gomes. Para mais informações acesse o site http://www.oficinadosmenestreis.com.br

Um comentário:

  1. Muito boa essa matéria. Nunca vi esse tipo de espetáculo. O texto e as entrevistas realmente me deixaram com vontade de assistir.

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